sexta-feira, 24 de junho de 2011

O campo de concentração contemporâneo


Para Foucault o poder é distribuído em diferentes instituições, parcialmente centralizado em cada uma, no entanto, descentralizado no âmbito global, acaba sob a gerência do Estado, que abarca todas as instituições e a partir desse monopólio legitima seu próprio poder, sua soberania. Diferentemente de Maquiavel e dos jusnaturalistas, Foucalt acredita que o poder não se concentra nas mãos do soberano, de forma objetiva e absoluta como um objeto, mas dentro da relação social em que alguém exerce domínio, interpretação similar à weberiana. Esta lógica presente no conceito de poder é fundamental no exercício de cargos dentro da burocracia estatal e das próprias instituições, que criam em torno de si uma grande rede de poderes que em última instância, de maneira sutil é finalizada no Estado.

Em sua obra, Foucault determina dois âmbitos de dominação, ou melhor, controle sobre a sociedade: o institucional e o Estatal. '' a série corpo-organismo-disciplina-instituições; e a série população-processos biológicos-mecanismos regulamentadores-Estado.'' (pg 298 - Michel Foucault; Em defesa da sociedade)

As instituições foram as grandes responsáveis por desenvolver uma organização disciplinar da vida dos indivíduos, introjetando certos tipos de comportamento através do exercício de um domínio cotidiano sobre os homens, uma tecnologia da disciplina, que foi desenvolvida exatamente a partir do exercício diário do poder dessas instituições. Essa espécie de poder, da tecnonologia da disciplina, é identificada por Foucault como potencializada no século XVII e XVIII, não por acaso. De fato, ao considerarmos esses dois séculos e retormarmos os eventos históricos da época,identificaremos na revolução francesa, na revolução gloriosa, na guerra civil inglesa, entre outros eventos marcantes do período, a ascensão da burguesia aos governos, seu domínio iminente do poder político e das possíveis determinações dos rumos da sociedade, concretizadas através do Estado.  Na tecnologia disciplinar, o caráter de racionalização e instrumentalização da vida, determinado nas diferentes esferas da vida (como Weber teorizou, a Esfera afetiva, política, econômica...) é evidente, como se as instituições pudessem determinar um ritmo disciplinar adequado, moldando os indivíduos na mansuetude e docilidade, para melhor produzirem, melhor se adequarem a sociedade burguesa.

Obviamente, considerar o desenvolvimento da tecnologia da disciplina e a potencialização das instituições nesse período apenas considerando a ascensão burguesa como critério, responsabilizando uma classe por todo o processo, seria uma análise rasa, superficial. Houve uma influência forte dessa classe na intensificação do processo, porém, ele é anterior a ascensão burguesa ao poder. A construção e introjeção da técnica da disciplina nos indivíduos nos diferentes âmbitos da vida pública e privada (não se pode esquecer da família como instituição, por exemplo) é um processo longo e complexo, que pode ser também associado ao processo de ascensão da razão como pilar central da vida, desenvolvido durante a modernidade. A crença de que a razão, por si só poderia conduzir os homens a uma sociedade ideal, com todos conflitos mediados pela razão, através do direito, a sociedade harmônica e perfeita, acompanhada pela federação dos países, como já delineava Kant em História de um ponto de vista cosmopolita. As ações racionais, a introjeção da disciplina, da autocontenção, é um processo também relacionado com a adoção das ciências, da razão pelos homens, espontaneamente, como forma de poder fazer a sociedade elevar-se para um grau ''evolutivo'' maior e os próprios homens ascenderem, pela autodeterminação racional.

Após estabelecer um controle ativo dentro da sociedade, dominarem com as regras de conduta, diciplina a vida privada e pública dos indivíduos, exercendo esse poder descentralizado nas diversas instituições mais canalizado sobre toda a sociedade, os homens podem ser visualizados como pré determinados, criados, pelas próprias instituições e pelo Estado.  

Este Estado, por outro lado, controla os homens de maneira mais ampla, não como indivíduos, mas como população, administrando a vida de cada um em função do todo. O exercício desta espécie de domínio confere ao Estado um poder inigualável sobre a vida, o Biopoder, poder de ''deixar viver, fazer morrer'' de acordo com o mais conveniente para o próprio corpo social, o mais lucrativo. A natureza da sobrerania foi modificada, como é perceptível, de soberanos que se autoafirmavam através da morte pública, do poder de retirar a vida, para o poder de garanti-lá. Nem todos, no entanto, se encontram inscritos dentro do poder do Estado de garantir a vida, abarcados pelo biopoder estatal, pois o Estado precisa escolher aqueles que ''merecem'' sobreviver, os que se forem deixados vivos, serão seres produtivos, que participaram na comunidade. Delineia-se na sociedade contemporânea, de maneira sofisticada, então, um racismo, não no sentido étnico, mas em um sentido evolucionista: eliminar, ou deixar morrer os mais fracos, por sua vida não acrescentar em nada a produtividade da população e somente ser onerosa para o Estado e para outros membros da comunidade.

É no âmbito do Estado, portanto, que se estabelece uma gerência populacional, ou da sociedade, não muito diferente de uma empresa, de um campo de concentração como o nazista, mas desta vez invisível, colocado com suas grades de arame farpado nas grandes metrópoles e que deixa morrer, os mendigos, a população mais pobre, os velhos... por atenderem a demanda produtiva social necessária para que valha a pena a manutenção das suas vidas, é uma questão puramente racional, administrativa, empresarial, acontece no entanto, que o preço desta seleção, não é um emprego, não é uma vaga dentro de uma fábrica, é a própria vida, e os membros dessa população, são incapazes de percebê-la até a morte assola-los, ou passar rente aos seus olhos. É impressionante como escondemos e fugimos da morte, como o diabo foge da cruz, pois é, não é puramente por acaso. 

Conclui-se, portanto, que dentro da sociedade contemporânea esses dois tipos de controle monopolizaram todas esferas da vida de forma tão intensa e totalitária que os membros da sociedade já nascem dentro de um molde e serão construídos pelas inúmeras instituições que determinam as regras de praticamente todas esferas da vida, não conseguindo a menor autonomia, pior, nessa sociedade de construção, perdemos a capacidade de questionamento, de análise, de utilizarmos a razão para a reflexão, perdemos a noção de quem somos, de onde estamos e somos incapazes de nos autodeterminarmos e nos apartamos das instituições e do Estado. Somos em última instância produto, objeto de submissão a uma lógica de produção social, somos um número, um código de barras para o Estado e para nós mesmos, bem, essa pergunta não é possível responder.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Exploração e suas duas filhas: a desigualdade e a miséria

O pilar central da vida em comunidade é muito mais uma questão de necessidade do que de escolha. É como Sócrates disse no segundo livro da República: “Uma cidade nasce, parece-me, porque cada um de nós não é auto-suficiente, mas carente de muitas coisas”. Como seres incompletos e diferenciados que somos, temos na interdependência a garantia da sobrevivência, e na base desta última, em qualquer sociedade, o trabalho.
Somente o trabalho, seja qual for a sua natureza, é capaz de produzir os frutos para alimentar a humanidade. A derradeira questão é como será feita a distribuição desses frutos? A esse respeito Sócrates não poderia ter sido mais breve ao dizer “cada um deve pôr o trabalho dele a disposição de todos”. De fato, se a apropriação do trabalho de toda a comunidade fosse igualitária, para cada uma de suas partes poderíamos encontrar o “paraíso em terra”, uma existência mais justa todos seres humanos.
É difícil visualizar essa cidade ideal, que Platão exaustivamente descreve, em um plano próximo ao da nossa existência. Somos herdeiros de um modelo de sociedade fundado com base no capital, na qual a divisão social do trabalho não deixa de ser um principio, nem o poderia, mas enquanto a cesta de poucos pesa de tantos frutos, outros estendem as mãos vazias. Por aqui a desigualdade é legitimada e anda de mãos dadas com a exploração dos homens.
A historia prova que a exploração dos homens e a desigualdade não existem apenas na sociedade burguesa. Esses princípios podem ser observados em sociedades pré-capitalistas, como o Império Romano. A desigualdade e a miséria são as maiores conseqüências desse modelo de sociedade, que foi gestado por séculos em conjunto com o capitalismo. A construção desse estado modelo de “coisas” atual, parte do princípio da apropriação do trabalho de muitos por poucos, da acumulação do capital nas mãos de um grupo, uma classe, que oprime os demais.
Ocorreu sobre tudo uma alienação do trabalho e do papel que cada individuo tem no corpo social do qual faz parte. Parece que não faz diferença tentar agir de uma maneira ou de outra, o resultado seria inócuo. Por fim legitimamos um sistema e uma realidade, naturalizando-os quando são puramente construções históricas e fomos seduzidos pelos possíveis benefícios ou pela possível “ascensão” social dentro desse regime. Em fim destruímos a partir da exploração do homem sobre outros homens, qualquer panorama de comunidade em qual prevaleça a justiça e a igualdade.