O bem comum, expressão tão levianamente usada no nosso dia-a-dia, é algo completamente controverso e utópico, implica em que todos os indivíduos compartilhem de um mesmo ideal, que abdiquem de seus desejos pessoais e suas diferenças que fazem de cada um, cada um. Em uma comunidade onde de fato houvesse um objetivo único, a necessidade de um Estado e de leis seria erradicada. Como, felizmente, nossa sociedade consiste em milhares de pessoas com idéias e opiniões distintas, é impossivel todos terem suas vontades realizadas. Um consenso precisa ser alcançado e é por meio da ordem que isso se torna possível. Entretanto, ocasionalmente a ordem acaba se tornando a justificativa para o uso da política em prol dos interesses dos governantes e não dos governados. Se para a política a ordem é o suficiente para alcançar o aclamado bem comum, ela se contradiz; para Hobbes um Estado apolítico apenas se torna político no momento que os indivíduos entregam parte de sua “liberdade” ao soberano em troca de proteção e ordem, mas em uma ditadura, onde a ordem existe como em nenhum outro tipo de Estado, o bem comum é ignorado e o governante sobe ao poder sem passar por nenhum processo de aprovação popular.
Camila Pinheiro.
Camila Pinheiro.
Segundo Norberto Bobbio no Dicionário de Política, a manutenção da ordem nas relações internas de um Estado se define como um fim mínimo para a Política, para a execução posterior dos outros fins. Com base nesse pensamento e conscientes da situação de uma sociedade desigual, resultado da influência do poder econômico e ideológico e constituída por indivíduos pensando de formas distintas entre si, poderíamos prever a origem de conflitos pela defesa da vontade particular, tendo como solução desse impasse o uso da força física pelo o poder político.
Entretanto, esse poder político ou civil chega para propor uma ordem na sociedade, por meio de um consenso de ideais. Esse consenso, na verdade, trata de um equilíbrio de vontades e não uma unanimidade de interesses. Para amenizar o conflito e obter a ordem como resultado imediato da organização da coação, o poder civil se estabelece e proporciona para a comunidade o bem comum.
Gabriela Cocito.
Gabriela Cocito.
Partindo da premissa que o bem comum é o considerado por todos o ideal, ou seja, seria um concenso de todos os governados e governantes sobre as posições que o grupo assumiria, não acredito que o bem comum seja possivel, a não ser em grupos muito pequenos e nestes a partir do concenso e da tomada de atitude conjunta de todos os membros do grupo, haveria a ordem, portanto o bem comum se tornaria sinônimo da ordem.
Essa ideia no entanto é utópica, o concenso é um estado extremamente frágil e sempre haverão pessoas com posturas diferentes que entrarão em conflito, principalmente em grupos grandes. Nesse momento a política se faz presente na escolha das diretrizes do grupo, a favor de uns (de preferência a maioria) e contra outros. Estes últimos sem a vontade cumprida podem se revoltar e nesse momento os governantes usariam da força para fazer prevalecer a ordem e o grupo se manter coeso. Neste caso a ordem existe, mas o bem comum não. Portanto, para a política o bem comum não precisa ser a ordem, ambos existem dissociadamente, na verdade, é raro não estarem dissociados.
Jessica Castro.
Jessica Castro.
O que é o bem comum, para a Política? Uma vez que a condição para a aplicação da Política é a existência de algo a ser governado, ou seja, uma sociedade, pode-se admitir que o bem comum da Política seja o bem comum da sociedade. Este, por sua vez, não pode ser determinado pelos indivíduos governados, pois suas opiniões são demasiadamente díspares. Assim, os governantes estipulam o bem comum, que deverá ser sustentado por meio da coação e, em última instância, da coerção. Desse modo, o indivíduo é mantido em seu estado de ‘bom selvagem’, em que obedecerá às regras e não infligirá na manutenção do bem comum. No entanto, para que esse sistema funcione, é preciso uma ordem.
A ordem, considerando a definição do Dicionário de Política de Norberto Bobbio, é a finalidade da Política. Mas enquanto a ordem é fim, o bem comum é uma necessidade. Para haver Política, é preciso sociedade, que necessita do bem comum, o qual depende da ordem que, por sua vez, é o objetivo da Política. A ordem, então, é essencial para o bem comum; caso não o fosse, a sociedade estaria sofrendo conflitos, que poderiam ser do âmbito social, econômico ou até mesmo ideológico. Mas ela não necessariamente é o suficiente. Se a ordem não for precedida da conscientização do bem em prol da maioria, ela não poderá levar ao bem comum.
Luiza Munhos
Respondo sim. O poder político por sua excelência visa um consenso e um bem comum dos cidadãos de seu Estado, um equilíbrio de tensões. O bem comum, neste caso, será o orientador das condutas, leis e por se dizer da ordem de um Estado rumo a uma política plena. Importante ressaltar que a ordem não aparece apenas em poderes políticos. As ditaduras são claro exemplos de regimes -que oscilam entre âmbitos despóticos e políticos ou até mesmo, em certos casos, tendem para características paternais- onde a ordem é extrema. Em um Estado regido pelo poder político legítimo, a ordem será sempre, na teoria, usada para buscar o bem comum nem que esse seja a verdade absoluta intangível do Estado moderno.
Olivia P. Wey
Olivia P. Wey
Um ideal de bem comum tem diferenças entre o que quer a população e o que garante a política. A população deseja, analisando superficialmente, boas condições de vida e de trabalho, o que ao ver desta prover tais estruturas é uma das obrigações da política. Por existir este conflito de idéias, há a necessidade de construir um consenso entre sociedade e política.
O consenso é constituído a partir do ideal política, mas sem descontentar a população, para essa, a ordem é governar sem grandes contestações e agitações internas, sendo isto o bem comum para a política, pois a partir disso pode contentar a população e, desse modo, legitimar o seu governo.
Rafael Mignino
Rafael Mignino
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