A Revolta da Vacina foi um movimento de resistência popular ocorrido no Rio de Janeiro em novembro de 1904 e teve por motivo principal a reestruturação urbana da capital nacional, inspirada na que ocorrera em Paris em 1850. Acontece que esta urbanização, popularmente conhecida como ''Bota Fora'', foi responsável pela demolição de muitos cortiços e casarões velhos e assim centenas de famílias foram expulsas para a periferia. Sem uma infra-estrutura preparada para receber esses milhares de pessoas, a cidade carioca encontrou-se em uma situação de graves problemas urbanos: saneamento precário, acumulação de resíduos e super povoamento nas moradias populares. Uma reforma sanitária foi conduzida na cidade, liderada pelo prefeito Pereira Passos, e pelo chefe do Departamento Nacional de Saúde Pública e cientista, Osvaldo Cruz que tinha como objetivo principal obter controle das epidemias que se alastravam pelas áreas mais precárias, como a febre amarela, a varíola e outras.
Devido ás doenças o governo impôs a vacinação obrigatória e criou uma lei que permitia os ficais do Estado entrarem nas casas e aplicarem as vacinas à força, além disso, a falta de instrução da população perante o modo como a vacina seria aplicada gerou revolta. O descontentamento generalizado resultou no levante de novembro de 1904 que foi violentamente reprimido e acabou com cerca de 110 feridos, 40 mortos, inúmeras prisões e várias pessoas foram mandadas para o Acre.
Ao relacionarmos a Revolta da Vacina com a obra de Maquiavel, podemos inferir que o Estado, visando manter a ordem e resolver as tensões políticas, optou por sufocar a revolta de forma extremamente violenta. Apesar de no fim o conflito ter sido resolvido e o Estado mantido, desse modo justificando os meios do qual se utilizou para conter o levante, o governo não se preocupou em encontrar maneiras eficientes de evitar o descontentamento da população e o conseqüente atrito com as forças militares assim escapando a um dos princípios básicos defendidos por Maquiavel, que o príncipe deve evitar o máximo o ódio dos súditos, idéia ilustrada na citação: “O príncipe deve procurar evitar, como foi dito anteriormente, o que o torne odioso ou desprezível e, sempre que assim agir, terá cumprido o seu dever e não encontrará nenhum perigo nos outros defeitos.”.
O principe do fato histórico não soube agir de acordo com a fortuna que se lhe apresentou e evitar a revolta, contudo, pode-se considerar que as atitudes dos governantes da época, foram baseadas em posturas governamentais anteriores e assim, na própria história brasileira, para agir do modo que eles julgaram melhor. O pensamento de Maquivel é consoante a esta postura do governo, pois o seu pensamento confere um certo caráter de recorrencia aos fatos, embora cada acontecimento seja singular, assim o principe precisa ter o conhecimento do passado para saber como proceder. ''
Antes de mais nada, gostaria de parabenizá-los pela escolha do tema. Muitos dos blogs que visitei faziam referência a acontecimentos políticos extremamente recentes, acabando por produzir textos similares entre si. Este texto, a meu ver, destacou-se pelo fato histórico "inusitado". Além do mais, gosto muito da Revolta da Vacina.
ResponderExcluirO ponto de vista apresentado é muito interessante. O movimento higienista, do qual Osvaldo Cruz fazia parte, resultou na obrigatoriedade da vacina - Estado se impondo, visando fins e ignorando os meios - e consequentemente na reação da população. A forma como o texto acima explica que a atitude do principe visava manter a ordem através da repressão é interessante. Mais interessante é a afirmação que diz "o governo não se preocupou em encontrar maneiras eficientes de evitar o descontentamento da população e o conseqüente atrito com as forças militares assim escapando a um dos princípios básicos defendidos por Maquiavel, que o príncipe deve evitar o máximo o ódio dos súditos". Surpreendi-me com esta afirmação. Não havia imaginado esta análise. Imaginei que, no momento em que o soberano decide ir em busca de determinado fim (visando a manutenção do Estado), os meios por ele utilizados seriam irrelevantes. Agradeço pela nova perspectiva. E, novamente, parabéns pelo texto!
Cristina Toth Piller (RA00093132)
Assim como a colega anterior, parabenizo-os pela escolha de um exemplo histórico que, a primeira vista, não parece ser passível de análise sobre a perspectiva maquiavélica.
ResponderExcluirA respeito do texto, considero muito interessante a abordagem dada pois é um claro exemplo de ação do Estado, que, visando o garantimento da ordem e, também, a sua manutenção no poder, através da coerção, e não de vias mais pacíficas ou diplomáticas, reprime os movimentos contrários a ele.
É bom reiterar também como a figura do Oswaldo Cruz, que tinha um projeto de caráter sanitarista, visando o bem e a saúde da população, teve o seu projeto usado pelo Estado como meio para este controlar a população. Ou seja, uma nova aplicação de "os fins justificam os meios"; manipulou-se a figura e a função e o propósito de Oswaldo Cruz para o estado atingir seu objetivo. Interessante também notar a aplicação escolhida entre os vários preceitos maquiavélicos para a análise do evento já que sempre se fica preso a manutenção da ordem pelo Estado a qualquer custo, mas não se presta muito atenção que se deve contentar a população em um nível mínimo, não obliterá-la completamente.
Parabéns ao grupo, por contemplar em sua análise também qual a motivação do Estado e o seu enquadramento no contexto histórico do país para entender o modo como a ação foi praticada, não se limitando a simples exposição do fato.
Danilo Guimarães Santos (RA00102229)
Primeira mente, creio que também escolhi esse texto devido ao seu título. A relação entre Maquiavel e a Revolta da Vacina me agradou muito. Me agradou mais ainda a forma com que vocês lidaram com a introdução, fazendo um levantamento histórico interessante!
ResponderExcluirO segundo parágrafo já começa com uma forte máxima de Maquiavel: manter a ordem acima de tudo. A partir disso tem-se a questão de ser amado ou temido que pode ser prolongada com vários exemplos – como a Revolta da Vacina. Durkheim mesmo fala, se não me engano, em sua obra “O Fato Social” que o “Estado gosta e procura a ordem. Por isso foi violentamente sufocada. Agir pacificamente contra a massa trabalhadora não dava as mesmas certezas de sucesso do que agir de modo violento. Além, é claro, de ser mais rápido. Como Maquiavel mesmo diz, o líder deve agir como melhor achar, só cuidando para que não seja odiado. Deve-se levar em conta os meios – a forte repressão do governo –, com vista nos fins que se deu em que o povo foi vacinado e tudo “normalizado”. No caso, a obrigatoriedade da vacina e a violenta forma de conter o levante foram justificados pelo povo não conter mais a possibilidade de adoecer e causar uma epidemia na capital do país.
Dando um viés histórico ao comentário, devo ainda destacar a imensa agitação causada pela mídia. Tocqueville dizia que a mídia uniria o povo quando o Estado fizesse algo que fosse contra a liberdade. Pois bem, assim foi. Muitos homens, em meios públicos, disseram na época que aquela era uma manobra do governo para adoecer o povo, os levando a morte. O propósito de Oswaldo Cruz foi quase perdido por causa disso, e então houve a obrigatoriedade da vacina, a revolta que dá nome ao levante e a consequente repressão por parte do governo. Eis então, concisamente, o papel crucial exercido pela mídia que movimenta o povo de acordo com sua vontade a favor ou contra o governo.
Parabenizo o grupo pela ótima introdução e pela articulação no texto. Associar a revolta com as ideias de Maquiavel foi uma excelente ideia. Agradeço a oportunidade de discorrer um pouco sobre outros autores fazendo linhas de pensamento e me fazendo lembrar de aspectos históricos que tão importantes são para a nossa formação como profissionais.
Gustavo Rufo Peres RA00093124